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  • Muito além do fim

    “Eu não tenho medo da morte. Tenho medo de quando o avião balança muito”.

    Contracapa Lô Borges, o “Disco do tênis” (1972); Polysom, ed: 2017.

    Aconteceu muita coisa quando estive ausente e a morte de Lô Borges foi uma delas. O cantor e compositor nos deixou no primeiro domingo de novembro, dia 02. Ele tinha 73 anos. Milton Nascimento é o artista santificado do Clube da Esquina, mas, pelo modo como transformava o cotidiano em poesia – rasgada e de peito aberto (como em Equatorial, do disco A Via-Láctea), Lô é o meu favorito.

    Não faz muito tempo que, na estrada, voltando de uma viagem, o aleatório do streaming tocou Nuvem Cigana e aqueles versos pareciam dar sentido àquele crepúsculo de domingo.

    Se você quiser, eu danço com você no pó da estrada. Pó, poeira, ventania. (…) Se você deixar o coração bater sem medo.”

    As letras e sons pincelados por Lô junto do irmão, Márcio, letrista e parceiro recorrente, pareciam coisas malucas vindas de lugares distantes. O toque de folk e psicodélico à MPB empregava magia às manhãs e flores, aos conflitos e aos amores. Mesmo em suas composições mais sombrias e enigmáticas (como Feira Moderna), emanava algo de singelo, que partia de seu coração, demasiado mineiro. Em Lô habitavam tradição e ousadia. Simplicidade e sofisticação. Sempre honesto, “de verdade”.

    A vida e obra registram uma arte prolífica e coletiva. Criou, colaborou e pavimentou o caminho para novos cantores e compositores ao longo de 50 anos. Foi um gênio anti-narcisista que pregava um mundo em que a arte vem antes do artista. Sua existência vai reverberar assim: poética, sensível, caudalosa. Tchau, Lô. Como você já disse antes: “É hora de colocar o pé na estrada”, e como até os ateus dizem aqui em Minas: “Vai com Deus!”. 


    Trívias, anexos, etc.

    Paisagem da Janela é uma das faixas mais emblemáticas do Clube da Esquina. Composta por Lô Borges e Fernando Brant, foi inspirada na vista da janela do quarto de Brant, que morava no bairro Funcionários, em Belo Horizonte. A igreja citada na letra é a Basílica Nossa Senhora de Lourdes. A música contrasta o mundo exterior, a vida lá fora, as possibilidades criadas pela imaginação com a concretude do que está dentro do quarto.

    Matéria do Estado de Minas conta que Lô deixou prontos quatro álbuns de músicas inéditas. Os trabalhos foram gravados nos últimos três anos em parceria com seu irmão, Márcio Borges e a médica, poeta e amiga Manuela Costa. Juntos (e inspirados), realizaram Tobogã, lançado em agosto de 2024.

    O músico ainda autorizou a produtora Vânia Catani (O Filme da Minha Vida, Mate-Me Por Favor) e Rodrigo de Oliveira (Os Primeiros Soldados) a rodar um filme que conta o processo de criação do “disco do tênis”. Eles já haviam produzido o documentário Toda Essa Água, que acompanha Lô em turnê enquanto compõe novas músicas. Espero que o projeto se concretize.

    Em 2018, a revista MOJO pediu que Alex Turner fizesse uma lista com as músicas que inspiraram a criação de Tranquility Base Hotel & Casino. Disco dos Arctic Monkeys daquele ano. Aos Barões, que integra o “disco do tênis” é mencionada numa seleção que ainda conta com Nina Simone, Ennio Morricone, Marvin Gaye, Joe Cocker, Leon Russell, Stones e Stills Young Band. O rascunho a punho, por Turner:


    Mais:

    • O My Bloody Valentine pintou de surpresa para um show em Dublin. Barulhento, como manda o protocolo. A matéria da Stereogum tem fotos do merch e setlist da noite. O quarteto não tocava em público desde 2018. Como gostaria de um show deles por aqui no ano que vem. O site oficial já tem datas de uma turnê europeia e datas no Japão.

    • Outra morte sentida por aqui foi a de Gary Mounfield, o Mani, baixista dos Stone Roses e do Primal Scream. Indiscutível, um dos melhores no ofício.

    • Do Clube da Esquina para outros meninos criados no bairro Santa Tereza. Registro do encontro pesado entre os irmãos Cavalera (Cavalera Conspiracy), o Massive Attack e lideranças indígenas para a apresentação conjunta que realizaram no Espaço Unimed, há uma semana. FOMO define o que ainda sinto.

  • Ace Frehley (1951 – 2025)

    “Criamos algo que vai continuar mesmo depois que estivermos mortos e enterrados.”

    Ace se apresenta com o Kiss no Fulton County Stadium em 29 de Agosto de 1976. Atlanta, Georgia. (Foto: Tom Hill/WireImage)

    Nova York, 1973. Ace, um maluco do Bronx, de ascendência cherokee, foi o último integrante original a entrar para o Kiss, até então, Wicked Lester. Talvez o mais autêntico dos quatro. Dono de um estilo cru, despretensioso e elétrico que definiu o som da banda. Louco não é exagero. Apareceu para o teste na banda calçando um tênis de cada cor, vestido como um maltrapilho, um estranho vindo do espaço.

    Um dos guitarristas mais influentes do início dos anos 70, Ace foi o motivo pelo qual (pelo menos) duas gerações de adolescentes quiseram tocar uma guitarra pela primeira vez. Se possível, aquela Les Paul Custom, Tobacco Burst, com 3 captadores duplos. Seu som era básico, mas extremamente melódico e cantarolável: os riffs de Parasite, Cold Gin e God of Thunder e solos de Deuce, Love Gun e Detroit Rock City. Todos carregados de sua assinatura inconfundível.

    Quando olho para a capa do “Alive!” é o impacto de sua imagem com a guitarra esfumaçante que mais me chama a atenção.

    O abuso de álcool e drogas fez com que Ace, saísse fora de sintonia com os colegas e deixasse o quarteto. É também uma pena que na reunião da banda nos anos 90, suas habilidades estivessem tão deterioradas.

    Tinha 14 anos quando comprei meu primeiro CD do Kiss na Livraria Leitura do Shopping Del Rey.

    Ace Frehley faleceu hoje. Já separei aqui, com tristeza, minha camisa do Rock and Roll Over para vestir amanhã. É a homenagem que presto, como fã do Kiss, a um super-herói da vida real, cheio de defeitos, mas na mesma medida, emblemático. Me entristece não tê-lo assistido no auge e no palco. Uma ferida que vai deixar cicatriz no coração.

    Faça boa viagem de volta ao espaço. Nos vemos nas estrelas.