• Os melhores álbuns de 2025

    Foto: Galeria Nova Barão

    Aos 45 do segundo tempo, fiz a minha lista com os álbuns que mais gostei e que foram lançados neste ano que está acabando. Não precisei sofrer para escolher os meus favoritos: além de indie rock, tem post-rock, pop, eletrônico, krautrock e metal. Nada muito diferente do que as pessoas esperam de mim, mas com algumas surpresas.

    Allons-y!

    Jeff Tweedy – Twilight Override

    Ichiko Aoba – Luminescent Creatures

    Faetooth – Labyrinthine

    Smerz – Big City Life

    Nation of Language – Dance Called Memory

    Stereolab – Instant Holograms on Metal Film

    Deafheaven – Lonely People with Power

    Geese – Getting Killed

    Cate Le Bon – Michelangelo Dying

    Winter – Adult Romantix

    Wednesday – Bleeds

    Japanese Breakfast – For Melancholy Brunettes (& Sad Woman)

    Ghost – Skeletá

    Black Country, New Road – Forever, Howlong

    Sharon Van Etten & the Attachment Theory – Sharon Van Etten & the Attachment Theory

    terraplana – natural

    Mogwai – The Bad Fire

    Hatchie – Liquorice

    King Gizzard and the Lizard Wizard – Phantom Island

    Horsegirl – Phonetics On and On

    Motrik – EARTH

    Oklou – choke enough

    Deftones – Private Music

    Ben Kweller – Cover the Mirrors

    Snocaps – Snocaps

    Steven Wilson – The Overview

    Eliminadorzinho – eternamente,

    Water From Your Eyes – It’s a Beautiful Place

    Panchiko – Gingko

    Marissa Nadler – New Radiations

    james K – Friend

    Blondshell – If You Asked for a Picture

    Racing Mount Pleasant – Racing Mount Pleasant

    Ryan Davis & the Roadhouse Band – New Threats From the Soul

    Cory Hanson – I Love People

    High. – Come Back Down

    Turnstile – NEVER ENOUGH

    Jovens Ateus – Vol. 1

    bar italia – Some Like It Hot


    Etcétera

    • Quando mostrei o som da Marquise para o Fernando, o amigo brincou com o som dos portuenses: “Por acaso isso é um gajogaze?”. Os quatro amigos de longo tempo combinam as referências do guitarrista Miguel Pereira: Pixies, Fontaines D.C. e Radiohead, com a poesia abstrata nas letras da cantora Mafalda Rodrigues. O resultado é um post-punk do bom. “Ela Caiu”, primeiro disco do conjunto, está no mundo desde fevereiro.
    • A Daniella Zupo escreveu esse ensaio sobre a relação simbiótica de Lô Borges com Belo Horizonte para o Estado de Minas. Ela fala da coragem do compositor, que, após ter viajado o Brasil com dois consagrados discos em turnê, escolheu viver em BH. Longe do eixo artístico e das panelinhas, essa opção de Lô transparece em sua obra ao longo do tempo. Minas Gerais foi lembrada pelo Condé Nast Traveller como um melhores destinos para visitar em 2026. A matéria destaca a inspiração artística e gastronômica que se encontra nos arredores de Belo Horizonte.
    • Bom episódio do Tracklist com Joachim Trier, diretor de Valor Sentimental. Nesse canal do YouTube, personalidades e transeuntes pelas ruas de Nova York comentam a partir de uma playlist como é sua relação pessoal com as músicas que vão tocando. Aqui, algumas delas estão nos filmes do noruguês.

    Uma Batalha Após a Outra 

    O personagem do Leonardo DiCaprio fez parte de um grupo revolucionário no passado, e hoje, vive com a filha numa cidadezinha que acolhe imigrantes ilegais. A menina é sequestrada, os segredos do pai e da mãe são postos a prova e o cinema de Paul Thomas Anderson encontra o dos Irmãos Coen. 

    O melhor filme de 2025, ou pelo menos um dos, desembarcou rápido no streaming da HBO. Atualmente, os Estados Unidos estão presos a um punhado de crises que remontam à fundação do país e essa história, adaptada do livro Vineland, de Thomas Pynchon, captura o presente político americano com clareza. O filme sugere que as batalhas cotidianas são inevitáveis. Delas, surgem desvios, brechas e transformações. São dessas batalhas que também aprendemos que só se sobrevive com consciência de comunidade. Escrevi mais aqui.


    Foto do dia:

    John Cale, Lou Reed, Patti Smith e David Byrne tocando juntos em Nova York. Era 1976 e quem registrou a jam foi o lendário Bob Gruen.

    Ficamos por aqui. Que seu 2026 seja melhor que 2025. Não pegue pilha errada e fique firme. As coisas vão melhorar.

  • A vida é curta, apaixone-se

    Akira Kurosawa em uma ode à ideia de aproveitar a vida ao máximo.

    Something Like an Autobiography, edição americana da autobiografia de Akira Kurosawa, lançada pela Vintage Books em 1983. Foto tirada na Japan House.

    Esperava a Marcela na Japan House quando fui conhecer a biblioteca do museu. Encontrei essa autobiografia do Akira Kurosawa, que, da prateleira, me saltou aos olhos. Puxei o livro, sorteei um capítulo e comecei a ler. Por algumas dezenas de minutos, consegui pelas nas experiências que formaram o diretor, que falava de sua juventude rebelde e do horror que testemunhou quando viu um terremoto pela primeira vez.

    Kurosawa é conhecido pelos épicos de samurai e também um dos artistas que melhor explorou o potencial das imagens violentas na tela. Não se deixe enganar, o japonês foi um dos maiores humanistas do cinema. Sua obra é abundante em otimismo espiritual, seja no campo de batalha ou fora dele. Talvez o filme que melhor condense isso seja Ikiru, ou “Viver”, que se passa no escritório de uma repartição pública. Me lembrei dos minutos com o livro e desse filme após uma segunda-feira difícil e fui assistir. 

    Viver acompanha um servidor público, chefe de sessão, que está no mesmo departamento há 30 anos. Kenji Watanabe já teve energia, mas desde a morte da esposa, ela parece ter se esvaído. Ele carimba um documento aqui, outro papel aqui, encaminha um atendimento para outra sessão, e prossegue repetindo as mesmas tarefas todos os dias. Watanabe, então, descobre que um câncer no estômago o deixou com menos que um ano de vida. É quando cai a ficha que não é tarde. Que existem diferentes formas de colaborar, de amar e viver intensamente.

    Pelo personagem, brilhantemente encarnado por Takashi Shimura, se apresenta uma revela uma humanidade bruta, difícil de explicar. A história trata do mal-estar provocado pela falta de propósito e reitera que para viver, se fazem necessárias presença, entrega e significado. Watanabe passa os dias apenas existindo, ao invés de vivendo, até descobrir sua doença terminal. Mesmo com pouco tempo, se devota a um pequeno projeto que significa muito para ele. Entendendo que através dessa última ação, seria capaz de compartilhar felicidade com outras pessoas.

    Paralelamente, o filme denuncia a política e burocracia que lhe custaram tempo. Enterrando sua humanidade sob pilhas de papel. É também o retrato de qualquer vida consumida pelo trabalho. Quando a carreira fala, o coração cala.

    Essa é a intenção de Kurosawa, que tinha 42 anos quando filmou Viver: mostrar que para se conquistar qualquer tipo de satisfação ou felicidade, é necessário sofrer. Não porque o sofrimento seria uma prova, mas porque essa dor faz parte da vida. Parafraseando, dessa vez, o cinema pop: existe o amargo e o doce. Sem o amargo, o doce não teria gosto.

    Intervenção de rua clicada no Bairro Liberdade em Novembro de 2022.

    Relato Autobiográfico

    Esse é o título da edição brasileira de Something Like a Biography, o livro que encontrei na Japan House. A edição original, da Vintage Books, foi publicada em 1983 e ganhou tradução por aqui nos anos 90. Pesquisei e encontrei algumas cópias usadas na Estante Virtual. Interessante por intercalar as memórias pessoais do cineasta, tratando de sua infância e formação artística, como descritas nos capítulos que li, com relatos e descrições de seu método de trabalho. É utilizado como referência pelo British Film Institute, uma leitura que pretendo retomar.


    Etcétera

    • Saiu há poucos dias um novo episódio do Pop Fantasma Documento em que o Ricardo Schott passeia pela história do Radiohead. Está legal e, mesmo corrido, é recheado de informações. Bom para nos lembrar que a obra da banda é maior que as infantilidades sionistas proferidas por Thom Yorke e Jonny Greenwood.
    • Os ingleses de Oxford ainda quebraram o recorde de público da O2 Arena, em Londres, que vinha de 2017 (pelo Metallica). As apresentações, realizadas dias 21, 22, 24 e 25 de novembro, reuniram mais de 22 mil fãs por noite, com 22.355 pessoas reunidas para assistir à banda na última data. Essa filmagem de No Surprises, no dia 21, está decente.
    • Em sua lista de melhores filmes do ano, a revista francesa “Cahiers du Cinéma” incluiu “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho – indicado brasileiro a categoria de melhor filme internacional no Oscar. O diretor já havia sido citado em listas anteriores da Cahiers, com Bacurau (2020) e Aquarius (2016). Nas três vezes, esteve em quarto lugar. Bacurau chegou a estampar uma capa da publicação.
    • Já disse algumas vezes, que se fosse para eu montar uma banda hoje, gostaria que ela soasse como o Makthaverskan. Suecos de Gotemburgo que fazem um mix de post punk com dream pop. Som que está na moda, mas a banda é pouco badalada. Apresentaram recentemente Pity Party, primeiro single desde o último álbum, For Allting, de 2021.
    • Mais uma mensagem de fim de ano que um ensaio, propriamente dito, mas adorei o último vídeo do Nerdwriter. Porque os personagens precisam correr em filmes de comédia romântica? 

    Além da Fantasia: Yoshitaka Amano e Final Fantasy em Minas Gerais

    Por falar em Japão, o Centro Cultural Banco do Brasil de Belo Horizonte vai sediar “Além da Fantasia”, a maior exposição realizada sobre Yoshitaka Amano. Artista conhecido por seus trabalhos nas séries Final Fantasy e Vampire Hunter D, além de legado para animação, histórias em quadrinhos e moda. Amano já ilustrou uma história de Sandman, carta de Magic The Gathering e até capa da revista Vogue italiana.

    Pude visitar a mesma mostra em 2024, no Farol Santander, em São Paulo, e com certeza vou de novo. Uma captura que vi por lá:

    A exposição acontece de 10 de dezembro de 2025 a 2 de março de 2026, com entrada gratuita. São mais de 200 obras a mostra, que incluem pinturas, ilustrações, animações e objetos.

    Ele também é um dos artistas mais legais de se acompanhar no Instagram, onde compartilha visitas, trabalho e processo criativo.

  • Muito além do fim

    “Eu não tenho medo da morte. Tenho medo de quando o avião balança muito”.

    Contracapa Lô Borges, o “Disco do tênis” (1972); Polysom, ed: 2017.

    Aconteceu muita coisa quando estive ausente e a morte de Lô Borges foi uma delas. O cantor e compositor nos deixou no primeiro domingo de novembro, dia 02. Ele tinha 73 anos. Milton Nascimento é o artista santificado do Clube da Esquina, mas, pelo modo como transformava o cotidiano em poesia – rasgada e de peito aberto (como em Equatorial, do disco A Via-Láctea), Lô é o meu favorito.

    Não faz muito tempo que, na estrada, voltando de uma viagem, o aleatório do streaming tocou Nuvem Cigana e aqueles versos pareciam dar sentido àquele crepúsculo de domingo.

    Se você quiser, eu danço com você no pó da estrada. Pó, poeira, ventania. (…) Se você deixar o coração bater sem medo.”

    As letras e sons pincelados por Lô junto do irmão, Márcio, letrista e parceiro recorrente, pareciam coisas malucas vindas de lugares distantes. O toque de folk e psicodélico à MPB empregava magia às manhãs e flores, aos conflitos e aos amores. Mesmo em suas composições mais sombrias e enigmáticas (como Feira Moderna), emanava algo de singelo, que partia de seu coração, demasiado mineiro. Em Lô habitavam tradição e ousadia. Simplicidade e sofisticação. Sempre honesto, “de verdade”.

    A vida e obra registram uma arte prolífica e coletiva. Criou, colaborou e pavimentou o caminho para novos cantores e compositores ao longo de 50 anos. Foi um gênio anti-narcisista que pregava um mundo em que a arte vem antes do artista. Sua existência vai reverberar assim: poética, sensível, caudalosa. Tchau, Lô. Como você já disse antes: “É hora de colocar o pé na estrada”, e como até os ateus dizem aqui em Minas: “Vai com Deus!”. 


    Trívias, anexos, etc.

    Paisagem da Janela é uma das faixas mais emblemáticas do Clube da Esquina. Composta por Lô Borges e Fernando Brant, foi inspirada na vista da janela do quarto de Brant, que morava no bairro Funcionários, em Belo Horizonte. A igreja citada na letra é a Basílica Nossa Senhora de Lourdes. A música contrasta o mundo exterior, a vida lá fora, as possibilidades criadas pela imaginação com a concretude do que está dentro do quarto.

    Matéria do Estado de Minas conta que Lô deixou prontos quatro álbuns de músicas inéditas. Os trabalhos foram gravados nos últimos três anos em parceria com seu irmão, Márcio Borges e a médica, poeta e amiga Manuela Costa. Juntos (e inspirados), realizaram Tobogã, lançado em agosto de 2024.

    O músico ainda autorizou a produtora Vânia Catani (O Filme da Minha Vida, Mate-Me Por Favor) e Rodrigo de Oliveira (Os Primeiros Soldados) a rodar um filme que conta o processo de criação do “disco do tênis”. Eles já haviam produzido o documentário Toda Essa Água, que acompanha Lô em turnê enquanto compõe novas músicas. Espero que o projeto se concretize.

    Em 2018, a revista MOJO pediu que Alex Turner fizesse uma lista com as músicas que inspiraram a criação de Tranquility Base Hotel & Casino. Disco dos Arctic Monkeys daquele ano. Aos Barões, que integra o “disco do tênis” é mencionada numa seleção que ainda conta com Nina Simone, Ennio Morricone, Marvin Gaye, Joe Cocker, Leon Russell, Stones e Stills Young Band. O rascunho a punho, por Turner:


    Mais:

    • O My Bloody Valentine pintou de surpresa para um show em Dublin. Barulhento, como manda o protocolo. A matéria da Stereogum tem fotos do merch e setlist da noite. O quarteto não tocava em público desde 2018. Como gostaria de um show deles por aqui no ano que vem. O site oficial já tem datas de uma turnê europeia e datas no Japão.

    • Outra morte sentida por aqui foi a de Gary Mounfield, o Mani, baixista dos Stone Roses e do Primal Scream. Indiscutível, um dos melhores no ofício.

    • Do Clube da Esquina para outros meninos criados no bairro Santa Tereza. Registro do encontro pesado entre os irmãos Cavalera (Cavalera Conspiracy), o Massive Attack e lideranças indígenas para a apresentação conjunta que realizaram no Espaço Unimed, há uma semana. FOMO define o que ainda sinto.

  • A América Sou Eu

    Me faz um bem danado estar a passeio em São Paulo. Foram 10 dias na locomotiva, tempo suficiente para comprar discos, conhecer bares e restaurantes diferentes, rever os velhos amigos, fazer novos, comer o melhor lamen da vida (hm, foi o primeiro, mas tudo indica que será o melhor de todos), visitar a Beth e assistir aos shows do Mogwai, Yo La Tengo e do Stereolab.

    É capaz que volte a escrever sobre a viagem, só quero contar primeiro outra experiência.

    Sábado, estive no Instituto Moreira Salles para visitar a exposição Gordon Parks: A América Sou Eu. Sem exageros, uma das melhores que já vi. A mostra apresenta a obra do primeiro fotógrafo negro da revista Life e também o primeiro negro a assumir a direção de cinema por um grande estúdio por Com o Terror na Alma. Fui abatido pela força das fotografias expostas e mais que uma vez, me peguei sem palavras enquanto passeava com a Jéssica e a Manu. Gostaria de retornar ao museu para observar as imagens com a calma que merecem. E pretendo fazer isso antes de seu encerramento.

    Parks foi um dos maiores fotógrafos do século 20. Nasceu em meio à pobreza do interior do Kansas e aprendeu a usar sozinho a câmera que comprou de segunda (ou terceira) mão numa loja de penhores. O resto é, literalmente, história: clicou momentos importantes de Muhammad Ali, Martin Luther King e Malcolm X; Cobriu a Marcha sobre Washington, o crescimento da Nação do Islã e a formação do Partido dos Panteras Negras; Foi documentarista ativo na crise dos direitos civis que se espalhou pelos Estados Unidos nos anos 60, mas, suas fotos mais bonitas, impactantes e políticas foram as que tirou de gente comum. De trabalhadores com os filhos em momentos simples. De orações em família, da mulher regando uma flor com cuidado em sua janela pela manhã. Da vida cotidiana que acontecia no Harlem e no Brooklyn enquanto o país sangrava com a segregação racial.

    Exposta em dois andares, a mostra reúne cerca de 200 imagens feitas entre 1940 e 1970 que contam uma retrospectiva de sua obra e da história americana.

    Você pode seguir o perfil da Fundação Gordon Parks no Instagram.

    Gordon Parks: A América Sou Eu está exposta no IMS até dia 1/3/2026. Com curadoria de Janaina Damaceno, Iliriana Rodrigues e Maria Luiza Meneses. Dê uma chance, que é grátis e não requer agendamento.

    Anexos

    Snocaps é o som da vez por aqui. Trata-se do novo projeto das irmãs Crutchfield, Katie (a Waxahatchee) e Allison, com o MJ Lenderman. É o mesmo indie caipira que caracteriza o som dos envolvidos, porém, lo-fi.

    • Glen Powell e o Saturday Night Live recriaram o clipe de Weapon of Choice do Fat Boy Slim para anunciar o programa de sábado (15). O original em 4K, com Christopher Walken (e dirigido por Spike Jonze), aqui.

    • Ando questionando o tempo e energia que invisto em redes sociais. Recentemente, li dois textos da Vanessa Guedes que me somaram à sua perspectiva. Esse, Privacidade e Propaganda, e outro, sobre o horror da superexposição.

    • Ainda sobre internet, o Kyle Chayka da revista New Yorker cravou essa mudança de paradigma: o legal agora, é ter poucos e restritos seguidores. 

    • Para a Stereogum, em comemoração aos 80 anos de Neil Young, 80 artistas escolheram suas músicas favoritas do velhinho. A minha é Only Love Can Break Your Heart.

    • Essa foto da Sinéad O’Connor com a Chrissie Hynde em Londres, circa 1995:

    Obrigado a você que continua me acompanhando. Por hoje é só.

    Até a próxima.

  • As lembranças da brisa quente da Califórnia

    (IMDb)

    Estou me preparando para assistir Uma Batalha Após a Outra. O novo longa de Paul Thomas Anderson, que a maioria dos amigos com quem discuto cinema já teve a oportunidade de conferir. Faço isso revisitando sua obra, que é uma importante referência em minha formação. Para muito além do cinema. Comecei a tarefa com Licorice Pizza, de 2022. Por mais uma vez, me encontrei suspenso, em estado de sonho. Foi o título que me fez voltar a encarar uma sala de cinema quando elas voltaram a funcionar pós-crise do COVID-19. Foi bem recebido e avaliado à época, com três indicações ao Oscar em categorias de destaque: Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original.

    As melhores histórias, aquelas que “valem a pena”, nos convidam para, entre outras coisas, vivenciar o mundo sob outro ponto de vista. E talvez, sentir a alegria singular que surge de uma conexão humana autêntica. Em “Licorice”, um adolescente esbarra numa moça 10 anos mais velha e se apaixona. Literalmente, é o que acontece na primeira cena. O ator mirim Gary Valentine é um estudante de 15 anos, ainda cursando a high school. Cheio de cartas na manga, ele vive trabalhando em planos mirabolantes e abrindo negócios, querendo prosperar. Enquanto Alana Kane se encontra numa posição desconfortável. Insatisfeita, sob a sombra de suas irmãs, em uma casa onde ninguém parece dar a mínima para ela. Ambiciona ser vista e fazer parte de projetos maiores.

    A diferença de idade, que parece estranha e que no primeiro momento causa desconforto, se desenvolve numa relação platônica e tumultuada, Alana se confunde com a da paquera, melhor amiga ou irmã mais velha de Gary. Ele está apaixonado, mas não se assume. Ela se irrita com a inconsequência juvenil dele, mas demonstra apego ao fato de que ele parece se importar com ela. Eles brigam e fazem as pazes repetidas vezes, expelindo cores e caos pelas ruas e casas do Vale de São Fernando. Suas angústias e paixões são, simultaneamente, intensas e doces.

    Licorice Pizza remexeu em algumas memórias enterradas da minha adolescência. Esse período onde medos e expectativas estão em conflito, movimenta questões sobre formação, o impacto do contexto político, econômico, social e familiar sobre o pessoal. Os sonhos, crenças e perspectivas alimentadas. Gary cresceu rápido e assumiu responsabilidades demais; Alana, se esforça para ser reconhecida como uma adulta, mas é constantemente menosprezada. Essas marcas fazem com que o casal provoque um sentimento de familiaridade, uma vez que encenam o passado de frustrações (de como a vida é) e expectativas (sobre como deveria ser).

    Divertido e livre de sua costumeira melancolia, PTA apresenta uma odisseia de descoberta sob o ponto de vista desses jovens perdidos. Eles experimentam diferentes amores, trabalhos, roupas, prioridades e personalidades até encontrarem algo que lhes sirva. E ao final, não temos a certeza de que encontraram. Faltam maturidade e experiências ao casal, que corre, ansiosos por decidirem os rumos de suas vidas. 

    E não há nada tão expansivo quanto um coração ansioso. Ele proclama nossa existência como parte do universo. Os personagens sofrem profundamente, porque amam profundamente. Antes do romance, existe uma reflexão pertinente sobre autoconhecimento e construção de identidade a partir de como seus personagens encaram suas condições e como o mundo olha de volta para eles. Ao recriar o lugar em que viveu sua juventude, o cineasta desperta o desejo de permanecer nesse lugar bonito e cheio de possibilidades mesmo após o fim.

    Notas

    [1] O título faz referência a uma famosa loja de discos do sul da Califórnia dos anos 70.

    [2] Gary foi inspirado em Gary Goetzman. Ex-ator mirim. Goetzman é parceiro de Tom Hanks como produtor (juntos, assinam a trilogia Band of Brothers, The Pacific e Masters of the Air). Os papéis de Bradley Cooper e Sean Penn também foram inspirados em personalidades de Hollywood.

    [3] Paul Thomas Anderson tem relação duradoura com Alana Haim e suas irmãs, que contracenam com ela, fazendo sua família no filme. Dirigiu parte dos clipes da banda que elas têm juntas. 

    Anexos

    • As músicas que ouvimos na adolescência marcam as nossas vidas e acabam se tornando parte de quem somos. É o que diz um estudo global realizado pela Universidade de Jyväskylä, na Finlândia.

    • Ainda sobre PTA, a news do Bazzan esmerilhou o VistaVision, método que o cineasta utilizou para filmar Uma Batalha Após a Outra.

    • Estou viciado na música “Emily”, do grupo Racing Mount Pleasant. Eles são de Michigan, mas lembram os ingleses do Black Country, New Road. A voz de Sam DuBose, que também é o guitarrista, soa semelhante a do Matt Berninger, do The National.

    • Fãs de Tolkien e O Senhor dos Anéis: No Substack, a Clara Esteves publicou um belo ensaio sobre a pressão que chega até nós através das redes sociais e o aconchego que passa despercebido na vida comum.

    • Há cada vez menos filmes sendo feitos em Hollywood. O alto custo das gravações em Los Angeles fez a produção serial da cidade cair um terço na última década. Gráfico da revista Super Interessante.

    • O Jeff Tweedy (Wilco), esteve no Late Show do Stephen Colbert essa semana para contar como é tocar com os filhos e divulgar Twilight Override, seu álbum solo. O disco triplo (!) está entre os mais tocados e queridos do ano aqui em casa.

  • Ace Frehley (1951 – 2025)

    “Criamos algo que vai continuar mesmo depois que estivermos mortos e enterrados.”

    Ace se apresenta com o Kiss no Fulton County Stadium em 29 de Agosto de 1976. Atlanta, Georgia. (Foto: Tom Hill/WireImage)

    Nova York, 1973. Ace, um maluco do Bronx, de ascendência cherokee, foi o último integrante original a entrar para o Kiss, até então, Wicked Lester. Talvez o mais autêntico dos quatro. Dono de um estilo cru, despretensioso e elétrico que definiu o som da banda. Louco não é exagero. Apareceu para o teste na banda calçando um tênis de cada cor, vestido como um maltrapilho, um estranho vindo do espaço.

    Um dos guitarristas mais influentes do início dos anos 70, Ace foi o motivo pelo qual (pelo menos) duas gerações de adolescentes quiseram tocar uma guitarra pela primeira vez. Se possível, aquela Les Paul Custom, Tobacco Burst, com 3 captadores duplos. Seu som era básico, mas extremamente melódico e cantarolável: os riffs de Parasite, Cold Gin e God of Thunder e solos de Deuce, Love Gun e Detroit Rock City. Todos carregados de sua assinatura inconfundível.

    Quando olho para a capa do “Alive!” é o impacto de sua imagem com a guitarra esfumaçante que mais me chama a atenção.

    O abuso de álcool e drogas fez com que Ace, saísse fora de sintonia com os colegas e deixasse o quarteto. É também uma pena que na reunião da banda nos anos 90, suas habilidades estivessem tão deterioradas.

    Tinha 14 anos quando comprei meu primeiro CD do Kiss na Livraria Leitura do Shopping Del Rey.

    Ace Frehley faleceu hoje. Já separei aqui, com tristeza, minha camisa do Rock and Roll Over para vestir amanhã. É a homenagem que presto, como fã do Kiss, a um super-herói da vida real, cheio de defeitos, mas na mesma medida, emblemático. Me entristece não tê-lo assistido no auge e no palco. Uma ferida que vai deixar cicatriz no coração.

    Faça boa viagem de volta ao espaço. Nos vemos nas estrelas.

  • Diane Keaton (1946 – 2025)

    Quando você olha nos olhos de uma grande intérprete, enxerga toda a profundidade de sua vida. Diane Keaton era naturalmente engraçada e levava boa parte de sua inteligência, autenticidade e da paixão que sentia pela moda para suas personagens.

    A esposa original da máfia ditou mais que uma dezena de regras para uma boa comédia romântica. Trouxe graça para histórias conflituosas e complexas — desde que desceu daquele taxi para o cinema, aborrecida porque havia perdido a terapia em Annie Hall, um dos filmes que levarei no coração para sempre.

    Diane transcendeu o cinema e se tornou uma grande personalidade além da mídia. Teve a coragem de viver sob seus próprios termos: Nunca hesitou em fazer papéis difíceis, também dirigiu filmes e séries; Teve seus relacionamentos, mas não se casou. Só começou uma família quando tinha 50 anos, quando estava pronta. Não abriu mão de sua independência e foi feliz.

    Você foi incrível, Annie. La-Di-Da.

    Minha revisão de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa no Letterboxd.

  • A vida é uma mistura de coisas tristes e alegres

    Yi Yi (A One and a Two…), Edward Yang, 2000

    “Porque o mundo é tão diferente do que pensei que fosse? Quando fecho os olhos, o mundo que vejo é tão lindo.”

    As Coisas Simples da Vida encapsula um oceano de sentimentos e situações universais: amadurecimento, perda e arrependimento.

    Em um único dia, que deveria ser de sorte, a vida de NJ — um empresário que já teve seu golpe de sucesso no mundo da tecnologia — começa a desmoronar. Ele enfrenta reveses em todas as esferas: a empresa ameaça ruir, um amor mal resolvido ressurge, a mãe sofre um derrame. Paralelamente, amigos e familiares também se debatem em suas próprias crises. Nada é tratado com dramatização exagerada ou pretensiosidade filosófica. Pelo contrário: tudo se apresenta com a naturalidade da vida. A dor é concreta, mas expressa de forma sutil. Viver, aqui, é aceitar os altos e baixos: crescimento, perda, decadência e renovação. Um processo que, muitas vezes, custa sonhos e relacionamentos.

    A direção de Edward Yang é prova de que a verdadeira sofisticação reside no simples. Mesmo com tantos personagens e camadas, tudo é conduzido com leveza e sensibilidade. Ele observa homens e mulheres de todas as idades lidando com questões íntimas — e o faz com a mesma finesse e naturalidade que Robert Altman em seus melhores momentos.

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