Tag: Cooper Hoffman

  • As lembranças da brisa quente da Califórnia

    (IMDb)

    Estou me preparando para assistir Uma Batalha Após a Outra. O novo longa de Paul Thomas Anderson, que a maioria dos amigos com quem discuto cinema já teve a oportunidade de conferir. Faço isso revisitando sua obra, que é uma importante referência em minha formação. Para muito além do cinema. Comecei a tarefa com Licorice Pizza, de 2022. Por mais uma vez, me encontrei suspenso, em estado de sonho. Foi o título que me fez voltar a encarar uma sala de cinema quando elas voltaram a funcionar pós-crise do COVID-19. Foi bem recebido e avaliado à época, com três indicações ao Oscar em categorias de destaque: Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original.

    As melhores histórias, aquelas que “valem a pena”, nos convidam para, entre outras coisas, vivenciar o mundo sob outro ponto de vista. E talvez, sentir a alegria singular que surge de uma conexão humana autêntica. Em “Licorice”, um adolescente esbarra numa moça 10 anos mais velha e se apaixona. Literalmente, é o que acontece na primeira cena. O ator mirim Gary Valentine é um estudante de 15 anos, ainda cursando a high school. Cheio de cartas na manga, ele vive trabalhando em planos mirabolantes e abrindo negócios, querendo prosperar. Enquanto Alana Kane se encontra numa posição desconfortável. Insatisfeita, sob a sombra de suas irmãs, em uma casa onde ninguém parece dar a mínima para ela. Ambiciona ser vista e fazer parte de projetos maiores.

    A diferença de idade, que parece estranha e que no primeiro momento causa desconforto, se desenvolve numa relação platônica e tumultuada, Alana se confunde com a da paquera, melhor amiga ou irmã mais velha de Gary. Ele está apaixonado, mas não se assume. Ela se irrita com a inconsequência juvenil dele, mas demonstra apego ao fato de que ele parece se importar com ela. Eles brigam e fazem as pazes repetidas vezes, expelindo cores e caos pelas ruas e casas do Vale de São Fernando. Suas angústias e paixões são, simultaneamente, intensas e doces.

    Licorice Pizza remexeu em algumas memórias enterradas da minha adolescência. Esse período onde medos e expectativas estão em conflito, movimenta questões sobre formação, o impacto do contexto político, econômico, social e familiar sobre o pessoal. Os sonhos, crenças e perspectivas alimentadas. Gary cresceu rápido e assumiu responsabilidades demais; Alana, se esforça para ser reconhecida como uma adulta, mas é constantemente menosprezada. Essas marcas fazem com que o casal provoque um sentimento de familiaridade, uma vez que encenam o passado de frustrações (de como a vida é) e expectativas (sobre como deveria ser).

    Divertido e livre de sua costumeira melancolia, PTA apresenta uma odisseia de descoberta sob o ponto de vista desses jovens perdidos. Eles experimentam diferentes amores, trabalhos, roupas, prioridades e personalidades até encontrarem algo que lhes sirva. E ao final, não temos a certeza de que encontraram. Faltam maturidade e experiências ao casal, que corre, ansiosos por decidirem os rumos de suas vidas. 

    E não há nada tão expansivo quanto um coração ansioso. Ele proclama nossa existência como parte do universo. Os personagens sofrem profundamente, porque amam profundamente. Antes do romance, existe uma reflexão pertinente sobre autoconhecimento e construção de identidade a partir de como seus personagens encaram suas condições e como o mundo olha de volta para eles. Ao recriar o lugar em que viveu sua juventude, o cineasta desperta o desejo de permanecer nesse lugar bonito e cheio de possibilidades mesmo após o fim.

    Notas

    [1] O título faz referência a uma famosa loja de discos do sul da Califórnia dos anos 70.

    [2] Gary foi inspirado em Gary Goetzman. Ex-ator mirim. Goetzman é parceiro de Tom Hanks como produtor (juntos, assinam a trilogia Band of Brothers, The Pacific e Masters of the Air). Os papéis de Bradley Cooper e Sean Penn também foram inspirados em personalidades de Hollywood.

    [3] Paul Thomas Anderson tem relação duradoura com Alana Haim e suas irmãs, que contracenam com ela, fazendo sua família no filme. Dirigiu parte dos clipes da banda que elas têm juntas. 

    Anexos

    • As músicas que ouvimos na adolescência marcam as nossas vidas e acabam se tornando parte de quem somos. É o que diz um estudo global realizado pela Universidade de Jyväskylä, na Finlândia.

    • Ainda sobre PTA, a news do Bazzan esmerilhou o VistaVision, método que o cineasta utilizou para filmar Uma Batalha Após a Outra.

    • Estou viciado na música “Emily”, do grupo Racing Mount Pleasant. Eles são de Michigan, mas lembram os ingleses do Black Country, New Road. A voz de Sam DuBose, que também é o guitarrista, soa semelhante a do Matt Berninger, do The National.

    • Fãs de Tolkien e O Senhor dos Anéis: No Substack, a Clara Esteves publicou um belo ensaio sobre a pressão que chega até nós através das redes sociais e o aconchego que passa despercebido na vida comum.

    • Há cada vez menos filmes sendo feitos em Hollywood. O alto custo das gravações em Los Angeles fez a produção serial da cidade cair um terço na última década. Gráfico da revista Super Interessante.

    • O Jeff Tweedy (Wilco), esteve no Late Show do Stephen Colbert essa semana para contar como é tocar com os filhos e divulgar Twilight Override, seu álbum solo. O disco triplo (!) está entre os mais tocados e queridos do ano aqui em casa.