Categoria: Para ver

  • A vida é curta, apaixone-se

    Akira Kurosawa em uma ode à ideia de aproveitar a vida ao máximo.

    Something Like an Autobiography, edição americana da autobiografia de Akira Kurosawa, lançada pela Vintage Books em 1983. Foto tirada na Japan House.

    Esperava a Marcela na Japan House quando fui conhecer a biblioteca do museu. Encontrei essa autobiografia do Akira Kurosawa, que, da prateleira, me saltou aos olhos. Puxei o livro, sorteei um capítulo e comecei a ler. Por algumas dezenas de minutos, consegui pelas nas experiências que formaram o diretor, que falava de sua juventude rebelde e do horror que testemunhou quando viu um terremoto pela primeira vez.

    Kurosawa é conhecido pelos épicos de samurai e também um dos artistas que melhor explorou o potencial das imagens violentas na tela. Não se deixe enganar, o japonês foi um dos maiores humanistas do cinema. Sua obra é abundante em otimismo espiritual, seja no campo de batalha ou fora dele. Talvez o filme que melhor condense isso seja Ikiru, ou “Viver”, que se passa no escritório de uma repartição pública. Me lembrei dos minutos com o livro e desse filme após uma segunda-feira difícil e fui assistir. 

    Viver acompanha um servidor público, chefe de sessão, que está no mesmo departamento há 30 anos. Kenji Watanabe já teve energia, mas desde a morte da esposa, ela parece ter se esvaído. Ele carimba um documento aqui, outro papel aqui, encaminha um atendimento para outra sessão, e prossegue repetindo as mesmas tarefas todos os dias. Watanabe, então, descobre que um câncer no estômago o deixou com menos que um ano de vida. É quando cai a ficha que não é tarde. Que existem diferentes formas de colaborar, de amar e viver intensamente.

    Pelo personagem, brilhantemente encarnado por Takashi Shimura, se apresenta uma revela uma humanidade bruta, difícil de explicar. A história trata do mal-estar provocado pela falta de propósito e reitera que para viver, se fazem necessárias presença, entrega e significado. Watanabe passa os dias apenas existindo, ao invés de vivendo, até descobrir sua doença terminal. Mesmo com pouco tempo, se devota a um pequeno projeto que significa muito para ele. Entendendo que através dessa última ação, seria capaz de compartilhar felicidade com outras pessoas.

    Paralelamente, o filme denuncia a política e burocracia que lhe custaram tempo. Enterrando sua humanidade sob pilhas de papel. É também o retrato de qualquer vida consumida pelo trabalho. Quando a carreira fala, o coração cala.

    Essa é a intenção de Kurosawa, que tinha 42 anos quando filmou Viver: mostrar que para se conquistar qualquer tipo de satisfação ou felicidade, é necessário sofrer. Não porque o sofrimento seria uma prova, mas porque essa dor faz parte da vida. Parafraseando, dessa vez, o cinema pop: existe o amargo e o doce. Sem o amargo, o doce não teria gosto.

    Intervenção de rua clicada no Bairro Liberdade em Novembro de 2022.

    Relato Autobiográfico

    Esse é o título da edição brasileira de Something Like a Biography, o livro que encontrei na Japan House. A edição original, da Vintage Books, foi publicada em 1983 e ganhou tradução por aqui nos anos 90. Pesquisei e encontrei algumas cópias usadas na Estante Virtual. Interessante por intercalar as memórias pessoais do cineasta, tratando de sua infância e formação artística, como descritas nos capítulos que li, com relatos e descrições de seu método de trabalho. É utilizado como referência pelo British Film Institute, uma leitura que pretendo retomar.


    Etcétera

    • Saiu há poucos dias um novo episódio do Pop Fantasma Documento em que o Ricardo Schott passeia pela história do Radiohead. Está legal e, mesmo corrido, é recheado de informações. Bom para nos lembrar que a obra da banda é maior que as infantilidades sionistas proferidas por Thom Yorke e Jonny Greenwood.
    • Os ingleses de Oxford ainda quebraram o recorde de público da O2 Arena, em Londres, que vinha de 2017 (pelo Metallica). As apresentações, realizadas dias 21, 22, 24 e 25 de novembro, reuniram mais de 22 mil fãs por noite, com 22.355 pessoas reunidas para assistir à banda na última data. Essa filmagem de No Surprises, no dia 21, está decente.
    • Em sua lista de melhores filmes do ano, a revista francesa “Cahiers du Cinéma” incluiu “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho – indicado brasileiro a categoria de melhor filme internacional no Oscar. O diretor já havia sido citado em listas anteriores da Cahiers, com Bacurau (2020) e Aquarius (2016). Nas três vezes, esteve em quarto lugar. Bacurau chegou a estampar uma capa da publicação.
    • Já disse algumas vezes, que se fosse para eu montar uma banda hoje, gostaria que ela soasse como o Makthaverskan. Suecos de Gotemburgo que fazem um mix de post punk com dream pop. Som que está na moda, mas a banda é pouco badalada. Apresentaram recentemente Pity Party, primeiro single desde o último álbum, For Allting, de 2021.
    • Mais uma mensagem de fim de ano que um ensaio, propriamente dito, mas adorei o último vídeo do Nerdwriter. Porque os personagens precisam correr em filmes de comédia romântica? 

    Além da Fantasia: Yoshitaka Amano e Final Fantasy em Minas Gerais

    Por falar em Japão, o Centro Cultural Banco do Brasil de Belo Horizonte vai sediar “Além da Fantasia”, a maior exposição realizada sobre Yoshitaka Amano. Artista conhecido por seus trabalhos nas séries Final Fantasy e Vampire Hunter D, além de legado para animação, histórias em quadrinhos e moda. Amano já ilustrou uma história de Sandman, carta de Magic The Gathering e até capa da revista Vogue italiana.

    Pude visitar a mesma mostra em 2024, no Farol Santander, em São Paulo, e com certeza vou de novo. Uma captura que vi por lá:

    A exposição acontece de 10 de dezembro de 2025 a 2 de março de 2026, com entrada gratuita. São mais de 200 obras a mostra, que incluem pinturas, ilustrações, animações e objetos.

    Ele também é um dos artistas mais legais de se acompanhar no Instagram, onde compartilha visitas, trabalho e processo criativo.

  • A América Sou Eu

    Me faz um bem danado estar a passeio em São Paulo. Foram 10 dias na locomotiva, tempo suficiente para comprar discos, conhecer bares e restaurantes diferentes, rever os velhos amigos, fazer novos, comer o melhor lamen da vida (hm, foi o primeiro, mas tudo indica que será o melhor de todos), visitar a Beth e assistir aos shows do Mogwai, Yo La Tengo e do Stereolab.

    É capaz que volte a escrever sobre a viagem, só quero contar primeiro outra experiência.

    Sábado, estive no Instituto Moreira Salles para visitar a exposição Gordon Parks: A América Sou Eu. Sem exageros, uma das melhores que já vi. A mostra apresenta a obra do primeiro fotógrafo negro da revista Life e também o primeiro negro a assumir a direção de cinema por um grande estúdio por Com o Terror na Alma. Fui abatido pela força das fotografias expostas e mais que uma vez, me peguei sem palavras enquanto passeava com a Jéssica e a Manu. Gostaria de retornar ao museu para observar as imagens com a calma que merecem. E pretendo fazer isso antes de seu encerramento.

    Parks foi um dos maiores fotógrafos do século 20. Nasceu em meio à pobreza do interior do Kansas e aprendeu a usar sozinho a câmera que comprou de segunda (ou terceira) mão numa loja de penhores. O resto é, literalmente, história: clicou momentos importantes de Muhammad Ali, Martin Luther King e Malcolm X; Cobriu a Marcha sobre Washington, o crescimento da Nação do Islã e a formação do Partido dos Panteras Negras; Foi documentarista ativo na crise dos direitos civis que se espalhou pelos Estados Unidos nos anos 60, mas, suas fotos mais bonitas, impactantes e políticas foram as que tirou de gente comum. De trabalhadores com os filhos em momentos simples. De orações em família, da mulher regando uma flor com cuidado em sua janela pela manhã. Da vida cotidiana que acontecia no Harlem e no Brooklyn enquanto o país sangrava com a segregação racial.

    Exposta em dois andares, a mostra reúne cerca de 200 imagens feitas entre 1940 e 1970 que contam uma retrospectiva de sua obra e da história americana.

    Você pode seguir o perfil da Fundação Gordon Parks no Instagram.

    Gordon Parks: A América Sou Eu está exposta no IMS até dia 1/3/2026. Com curadoria de Janaina Damaceno, Iliriana Rodrigues e Maria Luiza Meneses. Dê uma chance, que é grátis e não requer agendamento.

    Anexos

    Snocaps é o som da vez por aqui. Trata-se do novo projeto das irmãs Crutchfield, Katie (a Waxahatchee) e Allison, com o MJ Lenderman. É o mesmo indie caipira que caracteriza o som dos envolvidos, porém, lo-fi.

    • Glen Powell e o Saturday Night Live recriaram o clipe de Weapon of Choice do Fat Boy Slim para anunciar o programa de sábado (15). O original em 4K, com Christopher Walken (e dirigido por Spike Jonze), aqui.

    • Ando questionando o tempo e energia que invisto em redes sociais. Recentemente, li dois textos da Vanessa Guedes que me somaram à sua perspectiva. Esse, Privacidade e Propaganda, e outro, sobre o horror da superexposição.

    • Ainda sobre internet, o Kyle Chayka da revista New Yorker cravou essa mudança de paradigma: o legal agora, é ter poucos e restritos seguidores. 

    • Para a Stereogum, em comemoração aos 80 anos de Neil Young, 80 artistas escolheram suas músicas favoritas do velhinho. A minha é Only Love Can Break Your Heart.

    • Essa foto da Sinéad O’Connor com a Chrissie Hynde em Londres, circa 1995:

    Obrigado a você que continua me acompanhando. Por hoje é só.

    Até a próxima.

  • As lembranças da brisa quente da Califórnia

    (IMDb)

    Estou me preparando para assistir Uma Batalha Após a Outra. O novo longa de Paul Thomas Anderson, que a maioria dos amigos com quem discuto cinema já teve a oportunidade de conferir. Faço isso revisitando sua obra, que é uma importante referência em minha formação. Para muito além do cinema. Comecei a tarefa com Licorice Pizza, de 2022. Por mais uma vez, me encontrei suspenso, em estado de sonho. Foi o título que me fez voltar a encarar uma sala de cinema quando elas voltaram a funcionar pós-crise do COVID-19. Foi bem recebido e avaliado à época, com três indicações ao Oscar em categorias de destaque: Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original.

    As melhores histórias, aquelas que “valem a pena”, nos convidam para, entre outras coisas, vivenciar o mundo sob outro ponto de vista. E talvez, sentir a alegria singular que surge de uma conexão humana autêntica. Em “Licorice”, um adolescente esbarra numa moça 10 anos mais velha e se apaixona. Literalmente, é o que acontece na primeira cena. O ator mirim Gary Valentine é um estudante de 15 anos, ainda cursando a high school. Cheio de cartas na manga, ele vive trabalhando em planos mirabolantes e abrindo negócios, querendo prosperar. Enquanto Alana Kane se encontra numa posição desconfortável. Insatisfeita, sob a sombra de suas irmãs, em uma casa onde ninguém parece dar a mínima para ela. Ambiciona ser vista e fazer parte de projetos maiores.

    A diferença de idade, que parece estranha e que no primeiro momento causa desconforto, se desenvolve numa relação platônica e tumultuada, Alana se confunde com a da paquera, melhor amiga ou irmã mais velha de Gary. Ele está apaixonado, mas não se assume. Ela se irrita com a inconsequência juvenil dele, mas demonstra apego ao fato de que ele parece se importar com ela. Eles brigam e fazem as pazes repetidas vezes, expelindo cores e caos pelas ruas e casas do Vale de São Fernando. Suas angústias e paixões são, simultaneamente, intensas e doces.

    Licorice Pizza remexeu em algumas memórias enterradas da minha adolescência. Esse período onde medos e expectativas estão em conflito, movimenta questões sobre formação, o impacto do contexto político, econômico, social e familiar sobre o pessoal. Os sonhos, crenças e perspectivas alimentadas. Gary cresceu rápido e assumiu responsabilidades demais; Alana, se esforça para ser reconhecida como uma adulta, mas é constantemente menosprezada. Essas marcas fazem com que o casal provoque um sentimento de familiaridade, uma vez que encenam o passado de frustrações (de como a vida é) e expectativas (sobre como deveria ser).

    Divertido e livre de sua costumeira melancolia, PTA apresenta uma odisseia de descoberta sob o ponto de vista desses jovens perdidos. Eles experimentam diferentes amores, trabalhos, roupas, prioridades e personalidades até encontrarem algo que lhes sirva. E ao final, não temos a certeza de que encontraram. Faltam maturidade e experiências ao casal, que corre, ansiosos por decidirem os rumos de suas vidas. 

    E não há nada tão expansivo quanto um coração ansioso. Ele proclama nossa existência como parte do universo. Os personagens sofrem profundamente, porque amam profundamente. Antes do romance, existe uma reflexão pertinente sobre autoconhecimento e construção de identidade a partir de como seus personagens encaram suas condições e como o mundo olha de volta para eles. Ao recriar o lugar em que viveu sua juventude, o cineasta desperta o desejo de permanecer nesse lugar bonito e cheio de possibilidades mesmo após o fim.

    Notas

    [1] O título faz referência a uma famosa loja de discos do sul da Califórnia dos anos 70.

    [2] Gary foi inspirado em Gary Goetzman. Ex-ator mirim. Goetzman é parceiro de Tom Hanks como produtor (juntos, assinam a trilogia Band of Brothers, The Pacific e Masters of the Air). Os papéis de Bradley Cooper e Sean Penn também foram inspirados em personalidades de Hollywood.

    [3] Paul Thomas Anderson tem relação duradoura com Alana Haim e suas irmãs, que contracenam com ela, fazendo sua família no filme. Dirigiu parte dos clipes da banda que elas têm juntas. 

    Anexos

    • As músicas que ouvimos na adolescência marcam as nossas vidas e acabam se tornando parte de quem somos. É o que diz um estudo global realizado pela Universidade de Jyväskylä, na Finlândia.

    • Ainda sobre PTA, a news do Bazzan esmerilhou o VistaVision, método que o cineasta utilizou para filmar Uma Batalha Após a Outra.

    • Estou viciado na música “Emily”, do grupo Racing Mount Pleasant. Eles são de Michigan, mas lembram os ingleses do Black Country, New Road. A voz de Sam DuBose, que também é o guitarrista, soa semelhante a do Matt Berninger, do The National.

    • Fãs de Tolkien e O Senhor dos Anéis: No Substack, a Clara Esteves publicou um belo ensaio sobre a pressão que chega até nós através das redes sociais e o aconchego que passa despercebido na vida comum.

    • Há cada vez menos filmes sendo feitos em Hollywood. O alto custo das gravações em Los Angeles fez a produção serial da cidade cair um terço na última década. Gráfico da revista Super Interessante.

    • O Jeff Tweedy (Wilco), esteve no Late Show do Stephen Colbert essa semana para contar como é tocar com os filhos e divulgar Twilight Override, seu álbum solo. O disco triplo (!) está entre os mais tocados e queridos do ano aqui em casa.

  • Diane Keaton (1946 – 2025)

    Quando você olha nos olhos de uma grande intérprete, enxerga toda a profundidade de sua vida. Diane Keaton era naturalmente engraçada e levava boa parte de sua inteligência, autenticidade e da paixão que sentia pela moda para suas personagens.

    A esposa original da máfia ditou mais que uma dezena de regras para uma boa comédia romântica. Trouxe graça para histórias conflituosas e complexas — desde que desceu daquele taxi para o cinema, aborrecida porque havia perdido a terapia em Annie Hall, um dos filmes que levarei no coração para sempre.

    Diane transcendeu o cinema e se tornou uma grande personalidade além da mídia. Teve a coragem de viver sob seus próprios termos: Nunca hesitou em fazer papéis difíceis, também dirigiu filmes e séries; Teve seus relacionamentos, mas não se casou. Só começou uma família quando tinha 50 anos, quando estava pronta. Não abriu mão de sua independência e foi feliz.

    Você foi incrível, Annie. La-Di-Da.

    Minha revisão de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa no Letterboxd.

  • A vida é uma mistura de coisas tristes e alegres

    Yi Yi (A One and a Two…), Edward Yang, 2000

    “Porque o mundo é tão diferente do que pensei que fosse? Quando fecho os olhos, o mundo que vejo é tão lindo.”

    As Coisas Simples da Vida encapsula um oceano de sentimentos e situações universais: amadurecimento, perda e arrependimento.

    Em um único dia, que deveria ser de sorte, a vida de NJ — um empresário que já teve seu golpe de sucesso no mundo da tecnologia — começa a desmoronar. Ele enfrenta reveses em todas as esferas: a empresa ameaça ruir, um amor mal resolvido ressurge, a mãe sofre um derrame. Paralelamente, amigos e familiares também se debatem em suas próprias crises. Nada é tratado com dramatização exagerada ou pretensiosidade filosófica. Pelo contrário: tudo se apresenta com a naturalidade da vida. A dor é concreta, mas expressa de forma sutil. Viver, aqui, é aceitar os altos e baixos: crescimento, perda, decadência e renovação. Um processo que, muitas vezes, custa sonhos e relacionamentos.

    A direção de Edward Yang é prova de que a verdadeira sofisticação reside no simples. Mesmo com tantos personagens e camadas, tudo é conduzido com leveza e sensibilidade. Ele observa homens e mulheres de todas as idades lidando com questões íntimas — e o faz com a mesma finesse e naturalidade que Robert Altman em seus melhores momentos.

    Letterboxd