Categoria: Para escutar

  • Os melhores álbuns de 2025

    Foto: Galeria Nova Barão

    Aos 45 do segundo tempo, fiz a minha lista com os álbuns que mais gostei e que foram lançados neste ano que está acabando. Não precisei sofrer para escolher os meus favoritos: além de indie rock, tem post-rock, pop, eletrônico, krautrock e metal. Nada muito diferente do que as pessoas esperam de mim, mas com algumas surpresas.

    Allons-y!

    Jeff Tweedy – Twilight Override

    Ichiko Aoba – Luminescent Creatures

    Faetooth – Labyrinthine

    Smerz – Big City Life

    Nation of Language – Dance Called Memory

    Stereolab – Instant Holograms on Metal Film

    Deafheaven – Lonely People with Power

    Geese – Getting Killed

    Cate Le Bon – Michelangelo Dying

    Winter – Adult Romantix

    Wednesday – Bleeds

    Japanese Breakfast – For Melancholy Brunettes (& Sad Woman)

    Ghost – Skeletá

    Black Country, New Road – Forever, Howlong

    Sharon Van Etten & the Attachment Theory – Sharon Van Etten & the Attachment Theory

    terraplana – natural

    Mogwai – The Bad Fire

    Hatchie – Liquorice

    King Gizzard and the Lizard Wizard – Phantom Island

    Horsegirl – Phonetics On and On

    Motrik – EARTH

    Oklou – choke enough

    Deftones – Private Music

    Ben Kweller – Cover the Mirrors

    Snocaps – Snocaps

    Steven Wilson – The Overview

    Eliminadorzinho – eternamente,

    Water From Your Eyes – It’s a Beautiful Place

    Panchiko – Gingko

    Marissa Nadler – New Radiations

    james K – Friend

    Blondshell – If You Asked for a Picture

    Racing Mount Pleasant – Racing Mount Pleasant

    Ryan Davis & the Roadhouse Band – New Threats From the Soul

    Cory Hanson – I Love People

    High. – Come Back Down

    Turnstile – NEVER ENOUGH

    Jovens Ateus – Vol. 1

    bar italia – Some Like It Hot


    Etcétera

    • Quando mostrei o som da Marquise para o Fernando, o amigo brincou com o som dos portuenses: “Por acaso isso é um gajogaze?”. Os quatro amigos de longo tempo combinam as referências do guitarrista Miguel Pereira: Pixies, Fontaines D.C. e Radiohead, com a poesia abstrata nas letras da cantora Mafalda Rodrigues. O resultado é um post-punk do bom. “Ela Caiu”, primeiro disco do conjunto, está no mundo desde fevereiro.
    • A Daniella Zupo escreveu esse ensaio sobre a relação simbiótica de Lô Borges com Belo Horizonte para o Estado de Minas. Ela fala da coragem do compositor, que, após ter viajado o Brasil com dois consagrados discos em turnê, escolheu viver em BH. Longe do eixo artístico e das panelinhas, essa opção de Lô transparece em sua obra ao longo do tempo. Minas Gerais foi lembrada pelo Condé Nast Traveller como um melhores destinos para visitar em 2026. A matéria destaca a inspiração artística e gastronômica que se encontra nos arredores de Belo Horizonte.
    • Bom episódio do Tracklist com Joachim Trier, diretor de Valor Sentimental. Nesse canal do YouTube, personalidades e transeuntes pelas ruas de Nova York comentam a partir de uma playlist como é sua relação pessoal com as músicas que vão tocando. Aqui, algumas delas estão nos filmes do noruguês.

    Uma Batalha Após a Outra 

    O personagem do Leonardo DiCaprio fez parte de um grupo revolucionário no passado, e hoje, vive com a filha numa cidadezinha que acolhe imigrantes ilegais. A menina é sequestrada, os segredos do pai e da mãe são postos a prova e o cinema de Paul Thomas Anderson encontra o dos Irmãos Coen. 

    O melhor filme de 2025, ou pelo menos um dos, desembarcou rápido no streaming da HBO. Atualmente, os Estados Unidos estão presos a um punhado de crises que remontam à fundação do país e essa história, adaptada do livro Vineland, de Thomas Pynchon, captura o presente político americano com clareza. O filme sugere que as batalhas cotidianas são inevitáveis. Delas, surgem desvios, brechas e transformações. São dessas batalhas que também aprendemos que só se sobrevive com consciência de comunidade. Escrevi mais aqui.


    Foto do dia:

    John Cale, Lou Reed, Patti Smith e David Byrne tocando juntos em Nova York. Era 1976 e quem registrou a jam foi o lendário Bob Gruen.

    Ficamos por aqui. Que seu 2026 seja melhor que 2025. Não pegue pilha errada e fique firme. As coisas vão melhorar.

  • Muito além do fim

    “Eu não tenho medo da morte. Tenho medo de quando o avião balança muito”.

    Contracapa Lô Borges, o “Disco do tênis” (1972); Polysom, ed: 2017.

    Aconteceu muita coisa quando estive ausente e a morte de Lô Borges foi uma delas. O cantor e compositor nos deixou no primeiro domingo de novembro, dia 02. Ele tinha 73 anos. Milton Nascimento é o artista santificado do Clube da Esquina, mas, pelo modo como transformava o cotidiano em poesia – rasgada e de peito aberto (como em Equatorial, do disco A Via-Láctea), Lô é o meu favorito.

    Não faz muito tempo que, na estrada, voltando de uma viagem, o aleatório do streaming tocou Nuvem Cigana e aqueles versos pareciam dar sentido àquele crepúsculo de domingo.

    Se você quiser, eu danço com você no pó da estrada. Pó, poeira, ventania. (…) Se você deixar o coração bater sem medo.”

    As letras e sons pincelados por Lô junto do irmão, Márcio, letrista e parceiro recorrente, pareciam coisas malucas vindas de lugares distantes. O toque de folk e psicodélico à MPB empregava magia às manhãs e flores, aos conflitos e aos amores. Mesmo em suas composições mais sombrias e enigmáticas (como Feira Moderna), emanava algo de singelo, que partia de seu coração, demasiado mineiro. Em Lô habitavam tradição e ousadia. Simplicidade e sofisticação. Sempre honesto, “de verdade”.

    A vida e obra registram uma arte prolífica e coletiva. Criou, colaborou e pavimentou o caminho para novos cantores e compositores ao longo de 50 anos. Foi um gênio anti-narcisista que pregava um mundo em que a arte vem antes do artista. Sua existência vai reverberar assim: poética, sensível, caudalosa. Tchau, Lô. Como você já disse antes: “É hora de colocar o pé na estrada”, e como até os ateus dizem aqui em Minas: “Vai com Deus!”. 


    Trívias, anexos, etc.

    Paisagem da Janela é uma das faixas mais emblemáticas do Clube da Esquina. Composta por Lô Borges e Fernando Brant, foi inspirada na vista da janela do quarto de Brant, que morava no bairro Funcionários, em Belo Horizonte. A igreja citada na letra é a Basílica Nossa Senhora de Lourdes. A música contrasta o mundo exterior, a vida lá fora, as possibilidades criadas pela imaginação com a concretude do que está dentro do quarto.

    Matéria do Estado de Minas conta que Lô deixou prontos quatro álbuns de músicas inéditas. Os trabalhos foram gravados nos últimos três anos em parceria com seu irmão, Márcio Borges e a médica, poeta e amiga Manuela Costa. Juntos (e inspirados), realizaram Tobogã, lançado em agosto de 2024.

    O músico ainda autorizou a produtora Vânia Catani (O Filme da Minha Vida, Mate-Me Por Favor) e Rodrigo de Oliveira (Os Primeiros Soldados) a rodar um filme que conta o processo de criação do “disco do tênis”. Eles já haviam produzido o documentário Toda Essa Água, que acompanha Lô em turnê enquanto compõe novas músicas. Espero que o projeto se concretize.

    Em 2018, a revista MOJO pediu que Alex Turner fizesse uma lista com as músicas que inspiraram a criação de Tranquility Base Hotel & Casino. Disco dos Arctic Monkeys daquele ano. Aos Barões, que integra o “disco do tênis” é mencionada numa seleção que ainda conta com Nina Simone, Ennio Morricone, Marvin Gaye, Joe Cocker, Leon Russell, Stones e Stills Young Band. O rascunho a punho, por Turner:


    Mais:

    • O My Bloody Valentine pintou de surpresa para um show em Dublin. Barulhento, como manda o protocolo. A matéria da Stereogum tem fotos do merch e setlist da noite. O quarteto não tocava em público desde 2018. Como gostaria de um show deles por aqui no ano que vem. O site oficial já tem datas de uma turnê europeia e datas no Japão.

    • Outra morte sentida por aqui foi a de Gary Mounfield, o Mani, baixista dos Stone Roses e do Primal Scream. Indiscutível, um dos melhores no ofício.

    • Do Clube da Esquina para outros meninos criados no bairro Santa Tereza. Registro do encontro pesado entre os irmãos Cavalera (Cavalera Conspiracy), o Massive Attack e lideranças indígenas para a apresentação conjunta que realizaram no Espaço Unimed, há uma semana. FOMO define o que ainda sinto.

  • Ace Frehley (1951 – 2025)

    “Criamos algo que vai continuar mesmo depois que estivermos mortos e enterrados.”

    Ace se apresenta com o Kiss no Fulton County Stadium em 29 de Agosto de 1976. Atlanta, Georgia. (Foto: Tom Hill/WireImage)

    Nova York, 1973. Ace, um maluco do Bronx, de ascendência cherokee, foi o último integrante original a entrar para o Kiss, até então, Wicked Lester. Talvez o mais autêntico dos quatro. Dono de um estilo cru, despretensioso e elétrico que definiu o som da banda. Louco não é exagero. Apareceu para o teste na banda calçando um tênis de cada cor, vestido como um maltrapilho, um estranho vindo do espaço.

    Um dos guitarristas mais influentes do início dos anos 70, Ace foi o motivo pelo qual (pelo menos) duas gerações de adolescentes quiseram tocar uma guitarra pela primeira vez. Se possível, aquela Les Paul Custom, Tobacco Burst, com 3 captadores duplos. Seu som era básico, mas extremamente melódico e cantarolável: os riffs de Parasite, Cold Gin e God of Thunder e solos de Deuce, Love Gun e Detroit Rock City. Todos carregados de sua assinatura inconfundível.

    Quando olho para a capa do “Alive!” é o impacto de sua imagem com a guitarra esfumaçante que mais me chama a atenção.

    O abuso de álcool e drogas fez com que Ace, saísse fora de sintonia com os colegas e deixasse o quarteto. É também uma pena que na reunião da banda nos anos 90, suas habilidades estivessem tão deterioradas.

    Tinha 14 anos quando comprei meu primeiro CD do Kiss na Livraria Leitura do Shopping Del Rey.

    Ace Frehley faleceu hoje. Já separei aqui, com tristeza, minha camisa do Rock and Roll Over para vestir amanhã. É a homenagem que presto, como fã do Kiss, a um super-herói da vida real, cheio de defeitos, mas na mesma medida, emblemático. Me entristece não tê-lo assistido no auge e no palco. Uma ferida que vai deixar cicatriz no coração.

    Faça boa viagem de volta ao espaço. Nos vemos nas estrelas.